RESENHA CRÍTICA: Trinta
Conta a história do único carnavalesco que até hoje conseguiu ficar famoso nacionalmente
Trinta
Brasil, 2014. 92min. Direção de Paulo Machline. Com Matheus Nachteragele, Paola Oliveira, Milhem Cortaz, Marco Ricca, Ernane Moraes, Paulo Tiefethandler, Lea Garcia.
Finalmente consegui assistir este filme que tinha um título tão equivocado que custava a acreditar. Que Diabos quer dizer Trinta num cartaz de cinema, absolutamente nada. Nem a idade, mas o sobrenome verdadeiro do famoso Joãozinho Trinta. Conta a história do único carnavalesco que até hoje conseguiu ficar famoso nacionalmente, mais que isso virou um ídolo do público que simpatizava com sua presença alegre, criativa, divertida (não convivi muito com ele mas na minha fase Globo no Rio, nos cumprimentávamos amigavelmente e nada dessa presença vemos no filme, onde o personagem é taciturno, pensativo, sempre preocupado).E mesmo suas frases famosas, principalmente aquela do “Quem gosta de pobreza é intelectual!” são ditas como se fossem frases da Bíblia.
Foi na verdade meu amigo Claudio que me chamou a atenção para um detalhe fundamental. Na história, Joãozinho é perseguido na Escola de Samba porque é ex-bailarino (não se fala na sexualidade dele diretamente, mas supõe-se que se é dançarino é gay! O que já é errado). Depois ele é vitima de uma perseguição não muito clara porque a figura que faz isso (Millhem Cortaz o vilão mais ativo do cinema brasileiro atual) também poderia ter posto fogo no barracão da escola (isso nunca fica muito claro). O difícil de acreditar é que Joãozinho tenha sido o primeiro gay a servir numa escola de samba, depois de décadas de desfiles, religiões que aceitam qualquer forma de sexualidade e assim por diante! Se numa escola não existe tolerância sexual, onde mais poderia existir?
É uma pena que o roteiro seja tão equivocado porque Matheus é o ator sensacional de sempre, mesmo que contido e amarrado, numa figura soturna e mesmo antipática. E o diretor Machline insiste em certas ideias como fazer a comparação do desfile de escola com Ópera como se isso fosse engrandecê-la! (várias vezes tem temas musicais de Ópera de fundo!).Cada coisa é uma coisa. E ficamos frustrados de ver pouco de samba nessa escola (ao final, certamente seria caro demais e impossível reproduzir ao menos parte do desfile que o consagrou. Mas cortar para imagens de transmissões de TV e assim mesmo tudo muito rápido, não resolve o problema).
Este rapaz chamado Trinta não tem vida própria, não sabe dançar (Matheus é filmado de muito longe e mal dublado por profissional) e fora alguns momentos de candomblé com a grande Lea Garcia, as duas outras possíveis grandes figuras da história viram meros coadjuvantes que ninguém quer ofender, o amigo mas rival Fernando Pamplona e o chefe da Escola (Ernani Moraes, muito bem). Duas mulheres fazem figuração, a bela Paola (como mulher santa de Pamplona) e a maior porta bandeira que no final das contas nem aparece dançando! Que pena que um tema desses tenha se perdido deste jeito.
Sobre o Colunista:
Rubens Ewald Filho
Rubens Ewald Filho é jornalista formado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), além de ser o mais conhecido e um dos mais respeitados críticos de cinema brasileiro. Trabalhou nos maiores veículos comunicação do país, entre eles Rede Globo, SBT, Rede Record, TV Cultura, revista Veja e Folha de São Paulo, além de HBO, Telecine e TNT, onde comenta as entregas do Oscar (que comenta desde a década de 1980). Seus guias impressos anuais são tidos como a melhor referência em língua portuguesa sobre a sétima arte. Rubens já assistiu a mais de 30 mil filmes entre longas e curta-metragens e é sempre requisitado para falar dos indicados na época da premiação do Oscar. Ele conta ser um dos maiores fãs da atriz Debbie Reynolds, tendo uma coleção particular dos filmes em que ela participou. Fez participações em filmes brasileiros como ator e escreveu diversos roteiros para minisséries, incluindo as duas adaptações de Éramos Seis de Maria José Dupré. Ainda criança, começou a escrever em um caderno os filmes que via. Ali, colocava, além do título, nomes dos atores, diretor, diretor de fotografia, roteirista e outras informações. Rubens considera seu trabalho mais importante o Dicionário de Cineastas, editado pela primeira vez em 1977 e agora revisado e atualizado, continuando a ser o único de seu gênero no Brasil.
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