O Texto Farsesco de Raul Brandao
Jornalista e dramaturgo, Raul Brandao propoe a linguagem como uma encenacao
Em A farsa (1903) o ficcionista português Raul Brandão propõe o vomitório linguístico como o elemento sígnico de sua narrativa. Jornalista e dramaturgo, Brandão propõe a linguagem como uma encenação. O que se encena em A farsa é a exasperação dos sentimentos, o principal deles, o ressentimento, o sentimento que se decuplica (ressentir, sentir duas vezes) rumando para um melodrama que o narrador apresenta como uma farsa: literária, linguística. Candidinha, a figura central, é a alma à deriva neste universo de perdição: ou perdição das perspectivas. O uso do idioma por Brandão não aspira à lógica das coisas: simbolista como herdeiro, Brandão alia som e significado; delirante decadente de um mundo entre dois séculos, Brandão é o oásis de um tempo literário.
A abertura desta novela furiosa dá-se num velório. Diante da morte de alguém, ouvimos um lamento desesperado de outrem:
“—Ai, que ma levam! Ai que ma levam!”
Um parágrafo que desce tenta atmosferizar a cena.
“Uma nuvem desce da serra: arrastam-se os rolos pelas encostas pedregosas e depois as baforadas espessas abafam de todo a vila. E noite, cerração compacta, névoa e granito, formam um todo homogéneo para construírem um imenso e esfarrapado burgo de pedra e sonho. Pastas sobre pastas de nuvens álgidas, que a noite transforma em crepes, amontoam-se na escuridão. O granito revê água. E sob a chuva ininterrupta, sob as cordas incessantes, a vila, envolta na terra glacial, parece lavada em lágrimas...”
E o desespero torna a ecoar na nave, reiterando a frase:
“—Ai que ma levam!”
Tudo verbera a tensão sofrida em A farsa. “A Felícia persegue, até à última, com furioso rancor, os heréticos, seus inimigos pessoais. Chegara a odiar o filho por ser ateu e expulsá-lo de casa.” As personagens de A farsa encenam o farsesco com vigor trágico. “A dor salva-a. Gritar é viver; despedaçam-se e revolvem-se dentro em nós todas as raízes; enche-nos a boca todo o fel do mundo; os olhos todo o amargor do mal salgado mas o que há em nosso ser de inútil some-se e a alma engrandece. Só pela dor se vive. Ouviste? ouviste? ouviste?”
As relações entre o mundo exterior e o interior das criaturas trazem o liame mágico do escritor.
“Do céu barrado continua a desabar a fastidiosa chuva e a ventania abala as vidraças. A vida é um inferno da banalidade e toda aquela secura pesa sobre o pobre homem que continua a gritar fincado no caixão:
—Lá a levam! lá a levam...”
Não saberemos muita coisa desta cena inicial. Talvez seja um prólogo sem função narrativa: quase uma epígrafe. Conheceremos Candidinha, a desgraçada, a miserável, o andrajo físico e espiritual que se arrasta vituperando e, entre suas tragédias, lhe morre o filho, em nome de quem ela dedicou tantas horas para um dia o ver no alto, como os ricos. “Não se vê a figura da tragédia. É da ventania, do escuro e do frio que sai aquela voz?” A voz do funeral parece não ter nome: é o instante trágico que interessa. A farsa é a farsa da desgraça. O narrador assevera: “Todos os desgraçados se parecem”. Liev Tolstoi disse o contrário ao começar um de seus romances. No fundo, talvez Brandão e Tolstoi estejam dizendo a mesma coisa em caminhos diversos.
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)
Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro ?Uma vida nos cinemas?, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br
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