O Distanciamento Moral de Louis Malle
O cineasta frances Louis Malle fez provocacoes morais em varios de seus filmes
O cineasta francês Louis Malle fez provocações morais em vários de seus filmes. Sempre buscou o distanciamento emocional e crítico ao debruçar-se sobre as condutas de suas personagens. No entanto, em nenhum outro filme ele foi tão cortantemente seco e distanciado quanto em Menina bonita (Pretty baby; 1978), seu primeiro filme feito nos Estados Unidos, sua descoberta da América em grande estilo. Talvez este tipo de provocação em que se atinge o coração de determinada coisa sem alteração de voz somente encontre parâmetro em certos filmes do japonês Nagisa Oshima: observa as coisas mais perturbadoras para nossos tabus quase como se estivesse num outro planeta, pertencente a uma outra espécie, um ver de fora estranho e enviesado. Menina bonita é uma visão da prostituição infantil, uma crônica da descoberta natural do sexo e dos sentimentos duma garotinha criada num prostíbulo de Nova Órleans por sua mãe prostituta; o olho cinematográfico de Malle adota o olho da menina para ver o mundo e aquele mundo, a adolescente filha de prostituta que só pode ver as coisas assim, pois ali foi criada e o universo de fêmeas que vendem os corpos a machos que os compram era o cotidiano e não poderia equiparar-se, esta maneira de ver, a qualquer outra pessoa, ainda mais uma criança, cujas circunstâncias de vida foram outras. Malle, mestre do cinema, capta essa essência do olhar em seu filme.
Na cena que abre o filme, o espectador depara com o olhar dilacerado e angustiado de Brooke Shields na pele de Violet; fora do quadro ouvimos gemidos duma mulher, tanto pode ser alguém fazendo sexo quanto dando à luz a uma criança. O plano da expressão de Brooke é longo; até cortar para as expressões de Susan Sarandon como sua mãe —ela está ganhando o irmãozinho de Violet, mas ainda aí Susan exibe algo de seu erotismo cênico como se estivesse transando. Toda a edificação de cenários dum bordel de Nova Órleans é elaboradíssima pelo rigor formal de Malle, que se vale com agudeza da fotografia de Sven Nykvist, habitual colaborador do diretor sueco Ingmar Bergman nos anos 70. A narrativa de Menina bonita encaminha com sensibilidade os lados divertido e sensorial do mundo das meretrizes naquele espaço: os bordéis da vida real têm mesmo sempre algo de espaço cinematográfico.
Ainda quando relata a esquiva aproximação sentimental entre Violet e o fotógrafo do bordel contratado pela cafetina, Malle não abdica de suas formas distanciadas. A frustração final da separação entre os dois é caracterizada num outro plano longo da expressão de Brooke, agora já não um olhar dilacerado, mas o amadurecimento deste olhar, que traz uma melancolia contida. Entre duas expressões (a do início, a do fim) da personagem de Brooke, Menina bonita constrói sua estética que, ao longo do filme, amadurece o processo de distanciamento narrativo.
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)
Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro Uma vida nos cinemas, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br
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