Diario de um Junho Carioca

Mais uma jornada ao Rio de Janeiro, repleto de historia, livros e que tais. Ha 18 anos!

31/08/2025 02:51 Por Eron Duarte Fagundes
Diario de um Junho Carioca

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I — ALGUNS DADOS: E CRISTINA PARAGUASSU

 

 

Foi minha décima oitava viagem à cidade do Rio de Janeiro. A décima acompanhado de minha esposa, Marilene. Minha primeira viagem ao Rio foi um acontecimento para mim. Era fevereiro de 1978: eu tinha 22 anos. Passei 24 horas a bordo de um ônibus da Penha para chegar ao Rio. Nunca me esqueceu o momento em que —eu encolhido e emocionado junto à janela— o ônibus cruzou pela placa onde se lia “divisa dos Estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina”: nunca antes cruzara a fronteira de meu estado natal. Às vezes me perguntam: qual é a graça de viajar? Mas também já me perguntaram: qual o sentido de passar horas lendo? Para que serve enfurnar-se numa sala de cinema? Escrever para quê?, que utilidade tem? Eu lhes devolvo: andar para quê? Comer para quê? Conversar para quê? Viver para quê? Entre as histórias que cercaram esta jovem brasileira que morreu na Indonésia, uma me impressionou de maneira estranha, consta que numa de suas últimas frases ela dissera que nunca se sentira tão viva. Procuramos as coisas que nos apaixonam por isto que escapa à maioria: para sentir mais intensamente a vida. E no entanto sabemos, se não conscientemente, nos subterrâneos de nossas percepções, que entre viver e morrer há uma tênue fronteira.

Na minha volta a Porto Alegre, quando dissemos ao taxista que fomos ao Rio para acompanhar a Bienal do Livro, ele perguntou: “Vocês gostam disto?” Disto? De circular à beira dos livros, estes objetos que em variados momentos me salvaram do vazio absoluto? De conhecer e ouvir pessoas diferentes que estão ali naquele cenário por motivações diversas? De, apesar das dificuldades de chegar-me aos estandes dos livros, sentir a respiração da multidão, dos seres humanos como eu? De apreciar palestras a que em minha província nem sempre tenho acesso? A Marilene deu ao taxista uma explicação mais acessível à compreensão comum: era um presente de formatura para nossa filha Giovana, que também autografara um livro coletivo no dia de encerramento da Bienal. No entanto: bem aventurados os ignorantes porque eles chegarão à sabedoria.

Pela Bienal, abandonamos um hotel no Flamengo que geralmente é nosso paradeiro em muitas décadas e hospedamo-nos num hotel na Barra da Tijuca, a cerca de quinze minutos a pé do Riocentro, onde esta grandiloquente mostra de livros carioca se daria. Manhã cedo, temperatura entre 18 e 20 graus (frio para os padrões cariocas), eu fazia minhas caminhadas à beira da avenida. Ao longo do dia, a temperatura subia, aproximando-se dos trinta graus; na véspera de nossa volta, quando circulamos pela praia do Recreio, o calor bateu nos 34 graus. Choque térmico ao voltar para Porto Alegre, num anoitecer: menos de dez graus.

No Rio. Algumas exposições em Botafogo. Uma na Casa Firjan, dedicada ao trabalho fotográfico do brasileiro Sebastião Salgado, tratando da exploração do trabalho até as raias do sofrimento entre os seres humanos. Um êxtase estético para nossa miséria: o paradoxo da arte. Na galeria da Fundação Getúlio Vargas, uma exposição plástica da afrobrasilidade. Quem me indicou estes dois eventos culturais do Rio foi Cristina Paraguassu, amiga de cinefilia, livros e coisas da arte que já há algum tempo eu aspirava a conhecer pessoalmente por gostar muito de seus raciocínios escritos nas redes sociais; ainda quando eu discordasse dela, a inteireza do raciocínio de Cristina me seduzia. Nesta minha viagem, marcamos encontro numa peça de teatro: fomos ver “Um fax para Colombo”, um texto, escrito, dirigido e interpretado com autenticidade, vigor e engenho por Denise Stoklos. Deu-se no teatro PRIO, no Jockey Clube. Lá topei a primeira vez com Cristina, e atualizamos algumas impressões que havíamos esboçados nas redes sociais. Houve também a oportunidade de, por Cristina, conhecer outros amigos, de afinidades. O homem de teatro e leituras Marcos Americano, que se apresentava com uma camisa homenageando “Dom Casmurro”, meu romance brasileiro favorito. Cristina, natural de Rondônia, há 23 anos no Rio, mora na Glória; eu aproveitei para lembrar que Capitu e Bentinho, de “Dom Casmurro”, residiam nos anos de seu casamento neste bairro, Glória, e evoquei a célebre frase do romance: “O resto é saber se a Capitu da praia da Glória já estava dentro da de Matacavalos, ou se esta foi mudada naquela por efeito de algum caso incidente.” É claro que, na hora, não citei o trecho de memória, fiz uma paráfrase, aqui reproduzo inteiro o texto espiando meu exemplar da obra-prima de Machado de Assis. Entre os amigos que Cristina me permitiu conhecer, uma portuguesa, Carla, me deliciou, na sala, pouco antes de começar o espetáculo de Denise, com uma conversa em torno de José Saramago, António Lobo Antunes, universidade de Coimbra, Feira do Livro de Lisboa, Manoel de Oliveira (cineasta de quem Carla não gosta, por lento demais, mas eu adoro).

 

 

II — ISHANI

 

 

O nome dela é Ishani. Seu codinome familiar é Ishu. Ela é indiana. Tem 39 anos. É professora (de intercâmbio) numa universidade carioca. Aos 18 anos foi estudar na Pensilvânia, nos Estados Unidos. Lá conheceu um brasileiro, também estudante por lá, casou-se com ele, o casamento foi na Índia, depois viveram juntos sete anos no Rio. Descasaram-se. Hoje Ishani vive entre o Brasil (onde é seu trabalho) e a Índia, onde estão suas raízes e sua família.

Havia uma manifestação de indígenas diante do hotel: contra a destruição da Amazônia pela exploração do petróleo. Fui dar minha caminhada cedo e, ao voltar, dei com aquela praça de guerra. Seguranças, policiais e os manifestantes com faixas e discursos. Um segurança do hotel me abordou com secura incisiva: “O senhor é hóspede do hotel?” Respondi: “Sim.” Ele retrucou: “Tem o cartão do hotel aí?”. Apresentei-lhe o cartão. Senti-lhe um constrangimento, uma falta de jeito: e me liberou; agora amável. O que me parecia? Uma praça de guerra sem haver guerra. O poder constituído armava seu circo de repressão. Naturalmente, eu estava, cheio de culpa, entre os protegidos e os privilegiados do sistema de repressão.

Eu e minha família subimos ao andar da piscina. De lá passamos a espiar os protestos dos indígenas. Uma mulher que parecia ocultar seu rosto detrás dum pano, também estava próxima da amurada e olhava para a manifestação. Era de pele escura. Estaríamos nós, como Cabral em 1500, considerando aquela companheira de espaço uma natural da terra brasílica? Não: era Ishani, uma indiana. Cabral, ao chegar aqui, pensou que chegara à Índia, que era o que, dizem, buscava, um caminho para as Índias. De relance podemos ter pensado, ao ver Ishani, estar diante duma indígena, como as pessoas que observávamos lá embaixo. Numa breve interlocução Ishani desfez qualquer equívoco: era indiana: da Índia. Foi o início duma calorosa amizade. Fomos ao Cristo Redentor juntos. Estacionamos no Café Capitu, no Cosme Velho, à beira do Cristo, para minha evocação de Machado de Assis. O posto de trabalho de Ishani é perto, é em Cosme Velho, ela conhece bem o bairro, pois. Em outro dia, tórrido, andamos com Ishani pela praia do Recreio. Privamos com ela em alguns cafés-da-manhã no hotel. Ela esteve conosco num dia na Bienal do Livro. E, mais que tudo, com seu teor espiritual oriental, ela budista, proporcionara à minha filha Giovana conversas agudas e produtivas que me gratificaram muito.

(Na Bienal do Livro, Ishani comprou um livro de Carl Jung movida por uma curiosidade espiritual e da mente, bem à sua formação oriental e budista. Mas o episódio mais forte de nossa andança se deu ao fazermos um passeio pelo Recreio Shopping. Numa livraria no shopping ela fez duas compras de livros: um para uma amiga que estaria fazendo aniversário em agosto, outro se tratava dum livro de Paulo Coelho, “O alquimista”, deste ela lera algumas páginas na internet. Na volta para a Barra da Tijuca, o carro que eu dirigia parou numa sinaleira, Ishani estava bem atrás de mim no banco, só a ouvi dizer a um garoto que vendia alguma coisa na rua: “Querido, isto é para você... Vai ficar tudo bem... Você sabe ler? Lê, vai te fazer bem...” Ela alcançava para o menino o exemplar de Coelho que acabara de comprar. Nas conversas depois entre Ishani e minha filha Giovana, ainda no carro, soube que Ishani vira o garoto chorar, no hotel Giovana me disse que Ishani chorava também ao vê-lo chorar. Por que chorava o menino na rua? Pela miséria? Por ter brigado com a mãe, com o pai, com alguém importante em sua vida? Pela tristeza mesmo? Na Índia, lembrou Ishani, a miséria também é grande. A Giovana e todos nós achamos esta confluência de choros entre um garoto brasileiro da sinaleira e uma indiana a bordo dum carro de brasileiros um estranho e agudo encontro de sentimentos).

As metáforas dos cenários assumem um sentido mais profundo quando às paisagens vinculamos as passagens dos seres humanos por estes ambientes.

 

 

III — EXCERTOS

 

 

Bienal do Livro do Rio/2025. Uma conversação a que chamaram “A paixão pelo futebol”. Para o espectador/ouvinte/leitor/amante-do-futebol à maneira gaúcha que sou, uma amostragem do humor tipicamente carioca nos trânsitos entre a literatura e o futebol. Coordenados por um mineiro, certo, mas já muito carioca, o jornalista e apresentador Marcelo Barreto, os debates puseram na mesa os divertimentos de jornalistas e um ator que acabaram de publicar livros sobre sua paixão clubística, João Carlos Éboli (Vasco da Gama), Ruy Castro (Flamengo), Pedro Bial (Fluminense), Hélio de la Peña (ator, Botafogo). A ideia original foi de Ruy: depoimentos que, cada um por si, abarcasse os ditos quatro grandes clubes cariocas. Em certo instante Bial leu, com sua emoção carioca, uma crônica genuinamente carioca de Ruy. O futebol é, mesmo na corte, uma aventura regional? Talvez a literatura, em muitos aspectos, lhe siga os passos. No Café Literário. Para enfeixar estas minhas breves lembranças de viagem, uma citação ao meu comentarista futebolístico favorito, o gaúcho Ruy Carlos Ostermann, falecido neste junho, em Porto Alegre, aos 90 anos: “O futebol, o senhor sabe, é como a vida, às vezes nada existe ao redor senão um pobre e malsinado campo de futebol, outras vezes, além da grandeza do estádio, a gente pode andar por ruas que também foram de Van Gogh e de Rembrandt.” (in “A paixão do futebol”, Editora Movimento, 1976).

 

* * *

Bienal do Livro do Rio/2025. Um recital literário ao anoitecer no Riocentro, na Barra da Tijuca. A atriz Maria Gal abriu a cena fazendo a interpretação de um longo trecho de Quarto de despejo, um clássico literário de Carolina Maria de Jesus. Depois, escritores diversos recitaram poemas de outros escritores, em versos que iam de Manuel Bandeira a Conceição Evaristo. Eu, que sempre cultivei a literatura nas lucubrações de meus isolamentos, deparei a literatura como espetáculo onde a emoção escorre de outra maneira. Na Praça Além da Página da Schell.

 

 

* * *

 

 

Bienal do Livro do Rio/205. Maria Carvalhosa é escritora e curadora de audiolivros Supersônica. Ela esteve num dos eventos da Bienal, dado no Café Literário. O espetáculo se compôs da leitura em que algumas escritoras e intérpretes brasileiras leram textos de autores estrangeiras ganhadoras do Nobel. Cega (por um problema que lhe surgiu aos 13 anos de idade), Maria compareceu ao local com seu grande, lustroso e tranquilo cão-guia. Maria é, a meu ver, um bom exemplo de que a paixão da literatura (ou mesmo toda paixão artística) está além de nossas limitações físicas; a matéria física que compõe uma obra de arte é somente um meio para aquilo que importa em arte, a essência espiritual.

Maria brilhou. Quem também brilhou foi a escritora Eliana Alves Cruz numa cortante versão sonora da americana Toni Morrison. E não menos Bianca Ramoneda expondo pela voz as palavras da bielorussa Svetlana Aleksievitch e ainda Isabel Teixeira fazendo-nos devorar sua leitura da francesa Annie Erneaux.

 

 

* * *

 

 

E a magia da tarde de autógrafos, no estende da editora de Sinna, em que minha filha Giovana fez suas assinaturas juntamente com Angel Wolf, Amanda Pimentel e Vaneza Lopes, quatro escritoras presentes na Bienal com o livro de contos coletivo Amores proibidos de Avalon, das seis que escreveram histórias para a publicação.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro ?Uma vida nos cinemas?, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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