A Reportagem-Ensaio

O olho da rua tem varios tentaculos que sao reportagens de grande engenho e entrega

17/12/2020 14:06 Por Eron Duarte Fagundes
A Reportagem-Ensaio

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Recentemente, numa vídeo-conversa da Feira do Livro de Porto Alegre, a jornalista e escritora Eliane Brum, questionada por um espectador se afinal faria seu livro sobre Marielle Franco, respondeu que não; e deu seus motivos: Eliane se considera “terrivelmente repórter” e, para tratar de Marielle, teria de estar no Rio de Janeiro, no contato das ruas cariocas, o que, nestes tempos da pandemia internacional, está adiado. O leitor de Eliane pode saber disto ou descobri-lo lendo um livro como O olho da rua: uma repórter em busca da literatura da vida real (2008): ela é antes de tudo uma repórter, uma jornalista do corpo-a-corpo com a realidade; a literatura, em seu texto, surge mesmo depois e pouco a pouco e com naturalidade cultural; o primeiro instantâneo de sua linguagem é a precisão, depois vem o refinamento, lá pelas tantas as coisas se misturam, mas essencialmente a repórter é terrível, como assevera Eliane.

O olho da rua tem vários tentáculos que são reportagens de grande engenho e entrega. Parteiras amazonenses, garimpeiros dos remotos do país, a casa dos velhos, as mães que perdem filhos na violência dos trópicos, a Meditação Vipássana. Eliane publica o texto da reportagem e o texto dos bastidores da reportagem: faz o processo e o discute, a discussão do processo é um outro processo, um outro ensaio. Sim: as reportagens de Eliane são ensaios; a realidade, nas mãos de Eliane, é ensaística, sem perder o natural quase virginal do contato direto da linguagem com o mundo. Eliane, a repórter, logra ser ela mesma e o universo de pessoas de suas reportagens.

Mas a reportagem que mais deu calafrios a este leitor é a reportagem da morte: a repórter, terrivelmente, quer entrevistar a morte; deve ir às pessoas que, por doenças finais, têm o contato mais claro com o fim que em algum momento espera a todos nós. Esta reportagem-ensaio chama-se: “Vida até o fim”. Está dividida em duas partes: “A enfermaria entre a vida e a morte”, em que circula inclusive por gente conhecida à beira da morte; e “A mulher que alimentava”, um corpo-a-corpo de Eliane com a morte, em que a repórter passa vários dias convivendo com Ailce de Oliveira Souza, que tem câncer e deve estar no fim, a repórter quer descobrir na prática o que é isto, ou como é isto, este chegar ao fim, e contar essa história estranha: a reportagem da morte. Na primeira parte, há um trecho de arrepiar, em que Eliane contrapõe o encarar a morte do ator Paul Newman, que decidiu morrer em casa, com sua família, longe do hospital, e a ensaísta Susan Sontag, que tentou até o fim vencer o câncer, ainda suportando as dores trazidas pelos aparatos médicos, pois “Susan escolheu morrer sem se reconciliar com a ideia de morrer”. Na segunda parte, Eliane revela, no fim, que “ o olhar de Ailce é de infinita tristeza”. Mas não param aí as sobreimpressões do texto de Eliane. No fragmento final, Eliane, a repórter do texto, homenageia um parceiro, o repórter da fotografia. E ele é Marcelo Min, responsável pelas fotografias da reportagem-ensaio “Vida até o fim”. Eliane revela: “Numa manhã de agosto, Min tinha acabado de deixar os dois filhos, Arthur, então com sete anos, e Pedro, com quatro, na escola e foi patinar no Parque Villa-Lobos, em São Paulo. Sentiu-se mal de repente. Era um aneurisma no cérebro. Min morreu dois dias depois, em 27 de agosto de 2015”. Marcelo Min, que entrevistara a morte com Eliane, morreu algum tempo depois de maneira inesperada. Dá-se o ciclo. A vida (e uma de suas personagens centrais, a morte) é cíclica: as peças (que somos todos os que estamos dentro dela) nos movemos dentro destes ciclos. Eliane mostra, sem esforço, a clareza e os abismos de tudo isto.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro ?Uma vida nos cinemas?, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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