RESENHA CRÍTICA: Hipócrates (Hippocrate)
O filme não é notável e só pode interessar profissionais da profissão
Hipócrates (Hippocrate)
França, 14. 102 min. Direção de Thomas Lilt. Roteiro de Pierre Choson e Baya Kasmi, e mais Julien e Thomas Lilt. Com Jacques Gamblin, Vincent LaCoste, Reda Kateb, Marianne Denicourt, Felix Moati, Carole Franck.
Sem dúvida o estado lastimável da Saúde pública em nosso país daria um filme formidável, que provavelmente não poderia ser feito por que não conseguiria financiamento para isso. E temos que nos contentar com esta comédia-dramática francesa (que alguém descreveu como Hipócrita! Claro que o certo é uma referencia ao famoso médico grego da época de Péricles, considerado por muitos o pai da Medicina. Por causa disso os médicos formados normalmente são obrigados a fazer o juramento de Hipócrates!).
O filme teve boa recepção na França, onde deu o César de melhor ator coadjuvante para Red Kateb, que faz o papel marcante de Abdel, foi indicado ainda como ator, Lacoste, atriz coadjuvante Marianne, roteiro original, montagem, diretor e filme. Na verdade, o elenco é pouco conhecido a não ser pelo veterano e nada competente Gamblin, que faz o pai do herói Benjamin (Lacoste), que é recrutado para fazer estágio num grande hospital parisiense (mas o pai pouca atenção lhe dá) e a figura mais forte que ele encontra é justamente Abdel, um médico argelino (o ator também é filho de argelino) que tem que fazer provas para poder exercitar a profissão na França. Começa com certo humor e na segunda parte é que finalmente se torna mais dramático e social. É segundo trabalho do diretor Lilt (que fez antes Les Yeux Bandés,07).
O problema de Benjamin é que não pode errar e aos poucos vai perdendo a confiança em si mesmo (mas não espere um novo Dr. House, embora o seriado apareça rapidamente numa TV. Talvez esteja mais próximo é daquelas comedias inglesas com Dirk Bogarde nos anos 50-60 fazendo médico!). De qualquer forma, a situação é sintomática, o rapaz esquece de fazer eletrocardiograma num paciente com dores abdominais e que no dia seguinte aparece morto! Embora mantenha uma narrativa bem realista, aos poucos vão surgindo os problemas, o choque do primeiro cadáver, as pequenas mentiras para não tirar as esperanças dos pacientes, o problema dos pacientes terminais, a falta de recursos no hospital, que no fim acaba sendo um negócio como qualquer outro. Aliás parece lógico que o filme seja autobiográfico já que o diretor é médico formado e que também exerceu a profissão.De qualquer forma erraram na escalação do protagonista Lacoste (que já esteve em Les Beaux Gosses, 09 e em Asterix e Obelix, a Serviço de sua Majestade, 12 e no recente Diário de uma Camareira). Mas não tem empatia nem presença, é um erro que não ajuda o filme.
Embora tenha sido exibido em Cannes, não é notável, e só pode interessar profissionais da profissão.
Sobre o Colunista:
Rubens Ewald Filho
Rubens Ewald Filho é jornalista formado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), além de ser o mais conhecido e um dos mais respeitados críticos de cinema brasileiro. Trabalhou nos maiores veículos comunicação do país, entre eles Rede Globo, SBT, Rede Record, TV Cultura, revista Veja e Folha de São Paulo, além de HBO, Telecine e TNT, onde comenta as entregas do Oscar (que comenta desde a década de 1980). Seus guias impressos anuais são tidos como a melhor referência em língua portuguesa sobre a sétima arte. Rubens já assistiu a mais de 30 mil filmes entre longas e curta-metragens e é sempre requisitado para falar dos indicados na época da premiação do Oscar. Ele conta ser um dos maiores fãs da atriz Debbie Reynolds, tendo uma coleção particular dos filmes em que ela participou. Fez participações em filmes brasileiros como ator e escreveu diversos roteiros para minisséries, incluindo as duas adaptações de Éramos Seis de Maria José Dupré. Ainda criança, começou a escrever em um caderno os filmes que via. Ali, colocava, além do título, nomes dos atores, diretor, diretor de fotografia, roteirista e outras informações. Rubens considera seu trabalho mais importante o Dicionário de Cineastas, editado pela primeira vez em 1977 e agora revisado e atualizado, continuando a ser o único de seu gênero no Brasil.
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