CORPO (Corpo)
 


06 de junho de 2008

Alguns anos atrás, fiquei sabendo que existia um estudante de cinema, e aspirante a cineasta, que se chamava Rubens Rewald. Sem piada. Começaram a me encontrar e dizer: ‘Ah, você fez um filme’. E eu que não tenho a menor intenção de virar diretor, ou fazer qualquer filme. Ao menos não mais, até por questões éticas. Negava e ia em frente. Por estranho que pareça, existe mesmo um paulista quase homônimo, bem mais novo que eu, e que segue carreira no cinema, estreando agora seu primeiro longa-metragem, em parceria com sua mulher. Cheguei a conversar com o xará, e lhe sugeri que mudasse o nome, mas ele recusou. Muito bem, é seu direito. Como também é o meu deixar claro aqui que:

1) Rewald não é meu parente, nem distante. Só o conheço de alguns encontros fortuitos e, embora me pareça uma pessoa educada e simpática, não me tornei mais amigo até para não aumentar ainda mais a confusão.

2) Não fui eu quem fez este filme, nem nunca o faria; pior que isso, não gosto muito do resultado. A paciência já está se esgotando para mais um filme sobre mortos da ditadura, ainda mais centrado em um médico legista, onde a maior parte da ação se passa morbidamente num necrotério (espero que os cadáveres que vemos sejam fakes, atores, como as operações que são mostradas em “Nip&Tuck”).

Outra coisa curiosa que é a cara do cinema brasileiro: não há quase atores bons na faixa dos quarenta anos, que é geralmente a faixa de idade dos protagonistas dos filmes - até porque, geralmente, os cineastas também estão regulando por aí. Então, redescobriram Leonardo Medeiros, que parece estar em toda parte, é o Caco Ciocler da hora; teve dia em que vi três filmes estrelados por ele. E o público ainda continua sem a menor noção de quem é o rapaz. Aliás, é um ator competente, que se esforça para criar tipos diferentes, mas estaria sofrendo de saturação de imagem, caso os filmes nacionais fossem vistos por mais alguém do que os críticos.

Enfim, Leonardo é o herói, e não tem a menor culpa da confusão da trama (aliás, eu sempre isento os atores brasileiros, conhecendo as circunstâncias em que trabalham, e como são mal remunerados. São heróis, e fazem milagres). É difícil acreditar que um médico daqueles ficaria tão impressionado com a morte de uma jovem, quando seu corpo aparece em perfeito estado de conservação, no mesmo momento - e qualquer relação entre os fatos parece ilógica - em que são encontradas ossadas de vítimas da repressão da Ditadura. Entra em contato com a filha dela (feita por Rejane Arruda: tive que recorrer ao IMDB, porque tenho dificuldade de reconhecer todas essas moças parecidas que vêm da televisão. Ela é catarinense, irmã de Carolina Kasting, e fez aquele horrível filme “Veneno da Madrugada”, também com Leonardo!). O resto do filme é uma obsessão irritante, que é mal construída, não sabe concluir, e não leva a coisa alguma.

O triste é que o filme tem um bom acabamento, apesar do orçamento modesto, e mesmo um elenco de apoio de qualidade (com Chris Couto no ingrato papel da chefe do herói).

Agora que percebo que Rewald aprecia mesmo possíveis equívocos, porque há um outro filme brasileiro parecido, de 1971, chamado “O Corpo” (a diferença está no artigo), de José Antonio Garcia. Ou seja, a história se repete.

Por Rubens Ewald Filho

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