Ao contrário de Kathryn Bigelow, cineasta americana que comumente retrata histórias que se passam dentro do mundo tipicamente masculino, Nancy Meyers sempre teve uma ânsia de retratar seu próprio mundo. Utilizando-se de fórmulas banais, senso de humor delicioso e provável inspiração de suas próprias vivências, ela criou uma filmografia própria, apesar de firmá-la sobre um grande número de clichês. Simplesmente Complicado segue, então, a linha de filmes anteriores da cineasta. É sobre pessoas ricas, explora relacionamentos e as dinâmicas entre homens e mulheres e, especialmente, traz consigo um olhar feminino. Se Do Que as Mulheres Gostam trazia um protagonista homem pouco importa, o foco ali era o feminino. Para Meyers, esse é o pivô. E seu novo filme é a irmã gêmea (quase idêntica) de Alguém Tem que Ceder. Mesma dinâmica, personagens muito parecidos e piadas que giram em torno de mesmos propósitos – só não é tão bom. Simplesmente Complicado acaba funcionando por que os protagonistas se divertem, entregando ótimas atuações, e porque a audiência almeja se identificar por conflitos e insinuações de uma obra que, se não complicada, ao menos é agradável.
A comédia romântica gira em torno das complicações que surgem quando os divorciados Jane (Meryl Streep) e Adam (Alec Baldwin) reiniciam o romance que deixaram para trás há muitos anos. Adam, casado com uma jovem e com novo filho para cuidar, precisa lidar com a situação, ao passo que Jane precisa enfrentar seu próprio código moral e as investidas de seu arquiteto, Jake (Steve Martin). Uma premissa até refrescante que é diversamente bem conduzida por Meyers quando ela confia nos seus personagens e deixa as emoções fluir de forma concisa. Mas nem sempre é assim. Simplesmente Complicado é muito burocrático e em vezes terrivelmente estereotipado. Meyers possui uma tendência já conhecida para o medíocre e ela bate muito nesta tecla em seu novo filme.
É tudo muito artificial no mundo criado por Meyers. Tudo muito redondo e trivial, evitando que emoções sinceras surjam. Portanto, quando os três filhos do casal começam a chorar em certo momento da metragem, sentimos indiferença e rangemos o dente. Não só diante da péssima qualidade das atuações, mas pelo deslocamento dramático, que por sua vez oscila muito no decorrer da metragem. E é justo no equilíbrio que o filme sobrevive, no momento onde a audiência releva as banalidades para deliciar-se pelos pequenos prazeres que a obra proporciona. Entre eles, a dinâmica de relacionamentos amorosos, que Meyers normalmente explora com uma comicidade eficiente. Mesmo que tal espírito cômico (ou mesmo o dramático) se mantenha um tanto inferior ao do ótimo Alguém Tem que Ceder.
O humor e agrado são então os triunfos de um trabalho que pouco possui a acrescentar, o que não evita que Simplesmente Complicado tenha seus momentos preciosos. Seja na cena competente que se passa em uma festa, sintetizando muito bem a dinâmica do “quarteto” que acaba sendo formado, ou mesmo um momento honesto que extrai de Alec Baldwin o desempenho mais emotivo e crucial da película. Baldwin, alias, rouba o filme ao lado - claro - de Meryl Streep. A deusa do cinema não está nada menos que exemplar e se diverte com sua personagem (o que é sempre bom). Ela e Baldwin formam uma química maravilhosa e sabem explorar ao máximo as nuances que residem entre seus personagens. Certamente são eles que provocam o fogo que mantém Simplesmente Complicado lúcido.
Por outro lado, Steve Martin possui poucos momentos realmente competentes e acaba se revelando como um personagem realmente aborrecido, em nada envolvente. Ao contrário do personagem de John Krasinski, ótimo para a fluidez cômica da película e roubando as cenas nas quais surge. Eles representam os dois extremos de Simplesmente Complicado, um filme que almeja ser ao mesmo tempo divertimento descomprometido e Cinema bastante limitado e superficial. O aproveitamento da película, portanto, acaba dependendo de sua audiência, e da capacidade desta para entreolhar aspectos e desconsiderar outros. É uma verdade incontestável a obviedade de Simplesmente Complicado e sua pura fraqueza, mas é também inevitável o sentimento leve e espirituoso que pode se ocasionar diante de uma regularidade cômica afetuosa e uma dupla principal de atores bastante virtuosa.
Não é conclusivo, portanto, a avaliação de Simplesmente Complicado em termos que vão de fotografia à trilha sonora - o longa-metragem é nocivo neste sentido. Graças às pitadas um tanto inspiradas do roteiro e um elenco que provoca a diversão instantaneamente, o filme torna-se assistível dentro de suas incapacitações assumidas. Contanto que não haja muitas exigências, é possível que o novo filme de Nancy Meyers - apesar de sua medíocre direção - consiga se qualificar ao menos como diversão gratuita. E consegue. Especialmente por que a outra mulher nos ingredientes deixa tudo muito mais gostoso. (Wally Soares)