Crítica sobre o filme "Guerra ao Terror":

Wally Soares
Guerra ao Terror Por Wally Soares
| Data: 02/04/2010
Guerra ao Terror é o mais novo filme que decide rondar aquele tema já percorrido incansavelmente da atual guerra do Iraque e os soldados que ficaram presos no olho do furação deste inferno. Depois de um ano saturado de filmes cercando o tema, Guerra ao Terror chega para mostrar que ainda se trata de um tema que pode resultar em algo proveitoso. Originalmente chamado de The Hurt Locker, que se traduz para algo como “O Armário da Dor”, o roteiro muda o foco para outro típo de batalha: a do esquadrão de bombas que se arrisca a todo momento quando vidas são depositadas diante da habilidade de manterem a concentração e a inteligência, evitando que outro boom assole a já desgastante guerra americana. E o filme dirigido com habilidade por Kathryn Bigelow justifica sua existência. Mesmo que não traga nada de novo ao gênero, é uma obra que tem algo a dizer.

É lamentável, portanto, sua ida direto para as locadoras no Brasil, já que é claramente um filme expressivo e visualmente eficiente que mereceria ter sido visto nas telas grandes. Alias, Guerra ao Terror desponta e te envolve com um grande número de virtudes. Apoiado claramente na tensão habilmente construída por Bigelow, que constrói climas pesados quando seus soldados partem para o campo, o longa te envolve diante de cenas bem montadas e atmosféricas. A direção de Bigelow é nervosa, pesada e eficiente, trazendo urgência e até mesmo beleza ao drama de seus personagens quando menos esperamos. E o roteiro também possui válidos atributos. O roteirista Mark Boal, que já havia escrito uma história sobre temores psicológicos sofridos por soldados no belo No Vale das Sombras (que por sua vez foi roteirizado por Paul Haggis) constrói bem seus personagens e versa de uma forma bem admirável sobre – como um diálogo ao início já aponta – “a guerra é uma droga”, e como ela modifica drasticamente a vida de seus soldados. Aqui, então, ele introduz um personagem que parece viver para sentir o êxtase e a adrenalina de desafiar a morte ao desarmar uma bomba. O filme guarda semelhanças em seu discurso com o superior Soldado Anônimo que, lançado à quatro anos, retratava a Guerra do Golfo como um paralelo à Guerra do Iraque, mostrando jovens soldados que iam para a guerra diante da futilidade e retornavam para casa transformados e transtornados. E, talvez por Guerra ao Terror bater tanto nesta mesma tecla e realmente não conseguir ir além do drama de mostrar seus personagens emocionalmente e psicologicamente corrompidos, ele não consiga ser memorável. Possui valiosos momentos, cenas muito bem realizados e uma narrativa que funciona tanto quanto entretenimento quanto como um sólido drama. O senão é seu efeito que, tirando um fim especialmente poético, não revela força o suficiente para pairar sob sua cabeça da forma como o material poderia. O último ato, por exemplo, poderia ter sido melhor trabalhado (ainda que a sequência que coloca o soldado perdido no supermecado seja especialmente inteligente) . De qualquer forma, é uma falha que não pesa sob o resultado em si, que realmente é um dos mais recomendáveis sobre o tema atual.

Fotografado com um realismo importante e editado sem cair em armadilhas, o filme tem um bom ritmo que compensa seus longos 130 minutos, envolvidos em cenas de especial eficiência na hora de mostrar de uma forma bem crua o que se passa na zona de guerra que pouco é revelada nos filmes do gênero. Por colocar o combate de lado e dar preferência à tensão relevante de soldados que salvam ao invés de matar, desativando bombas, o filme encontra seu diferencial e até um pouco de ousadia. E ainda conta com participações no elenco bem interessantes de Guy Pearce e, principalmente, Ralph Fiennes. Mas quem merece os elogios é Jeremy Renner, que exibe uma força sincera e pungente por trás de sua atuação, realmente nos convencendo do seu personagem complexo. São detalhes importantes assim que fazem de Guerra ao Terror um valioso filme. A poesia ofegante atingida ao seu fim não se cristaliza da forma esperada, mas garante uma transcendência humana importante para o tema retratado com admirável respeito. (Wally Soares)