As Dúvidas sa Linguagem como Arte Narrativa

Guimarães Rosa, por disposição particular ou por temperamento linguístico, não logra nunca escrever dentro do padrão comum de texto

12/07/2018 16:35 Por Eron Duarte Fagundes
As Dúvidas sa Linguagem como Arte Narrativa

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João Guimarães Rosa faleceu há mais de cinquenta anos. Sua obra testamentária, o livro de contos Tutameia (1967), publicada poucos meses antes de sua morte, completou o ano passado este meio século. O ficcionista de Grande sertão: veredas (1956), este monumento da literatura brasileira que afasta a muitos por suas dificuldades de linguagem e encanta a outros por sua  constante inventividade sintática e morfológica capaz de produzir êxtases estéticos, faz de Tutameia um texto-testamento legítimo: além das quarenta histórias bastante curtas (diz-se que são as mais curtas que ele escreveu), há quatro prefácios-ensaio que são, num só golpe, outras histórias (outros contos) quanto iluminações sobre o processo de criação literária a que Rosa se entregou durante toda a sua vida.

Na sua visão do sertão brasileiro, em contraponto a outras grandes visões deste cenário que só existe mesmo por aqui, Rosa pode ser pensado lado a lado com aquele universo de Graciliano Ramos, um sertão realista e árido, e o que disse Euclides da Cunha destas paragens com seu cartesianismo sintático e vocabular; pode-se dizer que o barroquismo rosiano desmonta a escrita barroca de Euclides e desfaz as ilusões de secura e silêncio de Graciliano. No último prefácio, “Sobre a escova e a dúvida”, o mais longo, talvez o mais enigmático, certamente o mais iluminador, o narrador anota: “Meu duvidar é da realidade sensível aparente - talvez só um escamoteio das percepções. Porém, procuro cumprir. Deveres de fundamentos da vida, empírico modo, ensina: disciplina e paciência. Acredito ainda em outras coisas, no boi, por exemplo, mamífero voador, não terrestre. Meu mestre foi, em certo sentido, o Tio Cândido.” Quem é Cândido? Nos parágrafos seguintes o prefaciador fala “num pequeno fazendeiro, suave trabalhador, capiau comum, aninhado em meios-termos, acocorado”, e disserta algumas coisas sobre este ser do sertão; mas o símbolo maior se impõe, o grande pensador da literatura brasileira no século XX, O Mestre Tio Antônio Cândido. Na dissertação do prefaciador se esclarece a opção por um sertão delirante, primo daquele  sertão cinematográfico de Glauber Rocha, “sertão místico disparando / no exílio da linguagem comum?”, como lemos no poema “Um chamado João”, de Carlos Drummond de Andrade.

Guimarães Rosa, por disposição particular ou por temperamento linguístico, não logra nunca escrever dentro do padrão comum de texto: as coisas são sempre sincopadas ao longo das páginas. Que se pode fazer ao lê-lo ou pensar sobre ele? “Propor uma reflexão a respeito do caráter subversivo da obra de Guimarães Rosa”, lembrou a escritora gaúcha, de Caxias do Sul, Alessandra Rech em seu luminoso ensaio sobre alguns contos de Corpo de baile (1956), Na entrada-das-águas, amor e liberdade em Guimarães Rosa (2010). No conto “Barra da vaca” está, em abertura: “Sucedeu então vir o grande espírito entrando no lugar, capiau de muito longínquo: tirado à arreata o cavalo raposo, que mancara, apontara do noroeste, pisando o arenoso.” O popular e o sofisticado ali se encontram; o narrador emaranha-se na linguagem para edificar-se diferentemente. É claro que não é fácil segui-lo. Mas quem disse que ler deve ser necessariamente fácil? Seguimos Alessandra Rech: uma reflexão sobre a subversão em arte tem de adotar um pensar também subversivo para se engolfar no que mais interessa num texto, seja este texto direto ou indireto, o prazer duma entonação interior de recitar.

Um profeta do idioma, mergulhado naquilo que o sertão tem de arcaico e futurista, o narrador de Rosa ataca em “Faraó e água do rio”: “As tachas pertenciam à Fazenda Crispins, de cem anos de eternidade.” A expressão, que começa com “cem anos”, conduz ao seguinte: 1967 foi também o ano da publicação de outro monumento da literatura latino-americana, Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez. No primeiro prefácio, o obscuro “Aletria e hermenêutica”, a primeira frase ficou clássica: “A estória não quer ser história. A estória, em rigor, deve ser contra a História. A estória, às vezes, quer-se um pouco parecida à anedota.” Fazendo da linguística um elemento de sua ficção, Rosa é hoje bastante combatido por alguns linguistas, que lhe exprobram erros etimológicos. Então a questão: Rosa se vale da linguística como dúvidas para sua arte de narrar e amplia sua liberdade de invenção para além da possível ciência da linguagem; demais, pode-se perguntar: seria a linguística uma ficção travestida de verdade científica? Há mesmo isso, ciência da linguagem? Cinquenta anos depois de seu último suspiro, Rosa e sua complexa obra-testamento, Tutameia, se põem como anteparos que ofuscam e iluminam, barrocamente, nossa maneira de enxergar as coisas e as letras por aqui.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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