Don Giovanni(Don Giovanni)
Ruggero Raimondi, John Macurdy, Edda Moser, Kiri Te Kanawa, Kenneth Riegel, José van Dam, Teresa Berganza, Malcolm King, Eric Adjani
Joseph Losey
1979
França, Itália, alemanha, Inglaterra
173 minutos

A Versátil apresenta Don Giovanni, o monumental filme-ópera dirigido pelo mestre Joseph Losey (O Mensageiro), em versão restaurada e remasterizada, em DVD duplo com mais de uma hora de extras. Essa versão cinematográfica da ópera de Wolfgang Amadeus Mozart foi filmada em belíssimas locações em Veneza e na região do Vêneto, na Itália. No elenco, grandes nomes da ópera mundial, como Ruggero Raimondi, Edda Moser e Kiri Te Kanawa. A música é executada pela orquestra e coro da Ópera de Paris sob a regência de Lorin Maazel.

Musical, Drama
Versátil
01/12/2008
Português
  

 
 

O ponto de vista da narrativa de Don Giovanni (Don Giovanni; 1979), o filme-ópera dirigido pelo cineasta norte-americano Joseph Losey a partir da ópera criada pelo músico Wolfgang Amadeus Mozart, é o de seu protagonista, o descarado, hedonista e amoral sedutor sexual Don Giovanni, que certamente fez sua glória num tempo de ingenuidade feminina (?). Este ponto de vista, que já está na faceirice ou travessura da música de Mozart, é realçado lingüisticamente por Losey na exuberância da sensualidade visual permitida pelo cinema, ao menos na concepção barroca de cinema que Losey exercita neste filme. O libreto de Lorenzo da Ponte, que no primeiro ato acompanha estas pecaminosas descontrações de sua personagem com muita volúpia, no segundo ato vai exercitar o olhar moralista da época para uma criatura tão sexualmente inescrupulosa (ele chegou a assassinar o pai de uma de suas seduzidas para continuar desfrutando de seus prazeres: tudo vale, é o Maquiavel do sexo), neste segundo ato as pessoas prejudicadas pela ação de Don Giovanni passam a rebelar-se e desnudar o caráter enganador da personagem central, a narrativa se vai tornando cada vez mais sombria (o faceiro se oculta nestas sombras), até a chegada da estátua diabólica no jantar que força Don Giovanni a cair no fogo de sua culpa (a cena da queimação da personagem é um dos deslumbramentos do filme). Na cantoria final da ópera, as personagens contra Don Giovanni, dentro de embarcações num rio, cantam que “assim acaba quem faz mal”. De uma certa maneira, mesmo seguindo o concerto moral do libreto, Losey subverte os conceitos do conto moral, topando uma grandiloqüência que erige o primeiro plano apaixonante duma figura como Don Giovanni.

O filme de Losey navega perplexo nestas oscilações de conceitos dos tempos de transformação. E segue mais ou menos aquilo que está na frase do filósofo Antônio Gramsci que abre o filme como epígrafe: o velho morreu, mas o novo ainda não nasceu e portanto coisas mórbidas acontecem. A personagem principal vive num tempo moral que não a favorece; e o filme de Losey brilha nestas hesitações, condenar e exaltar uma alma que desafiou um tempo morto onde nada veio substituir este tempo morto.

No fim do primeiro ato três figuras mascaradas vestidas de preto investem contra Don Giovanni, apontando suas faltas. Estas imagens sombrias vão ligar o primeiro ato (luxurioso) ao segundo ato (uma descida mais tenebrosa). E são estas ligações narrativas no filme de Losey que estabelecem a dialética de Gramsci que, parece, o cineasta utiliza como holofote de seu pensamento estético nesta sua obra cinematográfica.

Losey, sabendo das dificuldades de impor como espetáculo fílmico uma ópera em imagens em movimentos, faz gato e sapato para tirar seu filme do gueto teatral: uma montagem cheia de mobilidade de câmara e corte, evocando o cinema do austríaco Max Ophüls, e na maneira como acelera a interpretação do tenor Ruggero Raimondi para dar carga dramática à personagem. Losey arriscou valer-se dos próprios cantores como intérpretes, e seu grandiloqüente estilo de filmar passou por cima de algumas debilidades interpretativas. É uma ação estética diferente daquela do português Manoel de Oliveira em seu filme-ópera Os canibais (1988), também recuperando a figura de Don Juan; Oliveira usou seus atores habituais para a consistência física das personagens e na faixa sonora os dublou com cantores líricos. Saliente-se que Losey se põe longe da estaticidade formal de Oliveira. Assim como Losey foge, com seus movimentos labirínticos grandiosos, à aridez do sueco Ingmar Bergman em sua ópera cinematográfica A flauta mágica (1975), também extraída de Mozart. (Eron Fagundes)

Todos os extras estão no segundo disco:

A Propósito de Don Giovanni – Um ótimo making of com importante participação de Losey e sua equipe técnica, com 26 minutos, recheado de cenas de bastidores, conceitos, informações técnicas. Um belo complemento ao filme.

A Odisséia Sonora – Um detalhado documentário, com 40 minutos, mostrando todo o trabalho de restauração do áudio, em suas diversas fases ao passar dos anos, até chegar nesta excelente versão. Uma aula de tecnologia sonora, muito informativa.

Trailer de Cinema (legendado)

Um muito importante filme operístico do Diretor Losey, dando uma aula de como se filmar uma ópera (ou pelo menos uma das estéticas do processo). Com imagem e áudio remasterizados, com excelente trabalho, a imagem está sem imperfeições e o áudio em 5.1 canais em Italiano, bem distribuídos, assim como uma versão e estéreo, mas sem a desnecessária dublagem. Os extras compõem bem o pacote. Para quem quer conhecer uma ópera, esta é uma boa oportunidade. Para os fãs do gênero, imperdível.
 
Por Edinho Pasquale em 04/12/2008
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