ENTRE DEUS E O PECADO
 

 

20 de junho de 2008

O cineasta gaúcho Paulo Nascimento tem apostado na literatura gaúcha. Em Valsa para Bruno Steim (2007) o roteiro busca amparo num romance de Charles Kiefer publicado em 1986. O filme anterior de Paulo, Diário de um novo mundo (2005), extraía seus apontamentos de época do primeiro livro do ficcionista Luiz Antonio de Assis Brasil. Em Valsa para Bruno Steim o realizador se parece cada vez mais com um Visconti dos pampas: a tentativa de criar tensões familiares obscuras, analisando-as, e a constante busca de um certo refinamento estilístico que se converte em imagens toscas e tortas porque falta a Nascimento tanto a sutileza quanto o senso de cinema do italiano Luchino Visconti, que parece muitas vezes a inspiração demasiada do diretor gaúcho.

É difícil para o observador descartar o esforço e o empenho de direção duma produção como Valsa para Bruno Steim. Desfilam atores experientes, como Walmor Chagas, Ingra Liberto, Araci Esteves e Carmen Silva, há pouco falecida. Mas os atores secundários parecem estar sempre fora de tom. E isto prejudica o conjunto interpretativo e atrapalha as possíveis soluções criativas dos mais experientes; Nascimento está mais preocupado na transposição de um roteiro de origens literárias e numa filmagem austera, cronística das cenas buscadas na literatura e condensadas numa narrativa cinematográfica curta, de anotações abruptas.

A base da tensão dramática de Valsa para Bruno Steim é a atração mútua entre a personagem de Walmor Chagas e a de sua nora vivida por Ingra Liberato; religiosa, calvinista, a criatura de Walmor se debate entre a obsessão sexual pela nora e a expiação da culpa sexual, entre Deus e o pecado, como diz o título de um velho filme do norte-americano Richard Brooks interpretado por Burt Lancaster. Na penúltima seqüência da narrativa o voraz mas contido ímpeto erótico do velho se materializa, quando se dá o encontro dos corpos, as mãos de Walmor que despem Ingra, as mãos de Walmor que agarram o corpo despido de Ingra. A seqüência posterior, que fecha o filme, mostra o protagonista se recostando num sofá, relaxando, enquanto liga a televisão; mas a televisão aparece sem programação, os ruídos da imagem vazia, de fim de noite. No livro a televisão é também ligada, mas surgem na telinha imagens de um baile de carnaval, mulatas rebolando, nádegas suadas, casais se beijando, o que gera na personagem um conflito religioso que se mistura à luxúria: destruir o televisor como fizera Deus com Sodoma e Gomorra. No filme de Paulo Nascimento estas paranóias éticas não são convincentes; um pouco pelo tipo de desempenho cansadamente realista de Walmor, outro tanto pelos desacertos formais na busca de contenção e cerebralismo empreendida pelo cineasta.

Não sei se se pode ter uma visão taxativa de Valsa para Bruno Steim. Não me parece ser este tipo de visão que propõe o filme de Paul Nascimento. O que pretendi empreender neste texto é um corolário das inquietações que o filme despertou em mim, inquietações e insatisfações que eu gostaria que fossem produtivas, se não para o cinema em si, ao menos para minha maneira de ver cinema.

Por Eron Fagundes

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