GENIVALDO, UM BRASILEIRO
 

 

06 de junho de 2008

O cineasta Eduardo Escorel é um veterano do cinema brasileiro. Dirigiu dois dos mais belos filmes brasileiros dos anos 70 e 80: Lição de amor (1975), extraído do romance Amar, verbo intransitivo (1927), de Mário de Andrade, e principalmente o pouco referido mas extraordinário Ato de violência (1980), onde o ator Nuno Leal Maia demonstrava uma capacidade de interiorização de personagem que surpreendeu na época os que estavam acostumados com seu tipo debochado em pornochanchadas e derivados e surpreenderia, se o filme fosse visto ou revisto hoje, diante da vulgaridade cênica do Nuno Leal Maia televisivo. Escorel dirigiu espartanamente, mas contribuiu para o cinema brasileiro em montagens definitivas como a de Terra em transe (1967), de Glauber Rocha, Cabra marcado para morrer (1984), de Eduardo Coutinho, ou Santiago (2007), de João Moreira Salles.

O tempo e o lugar (2008), a volta de Escorel à direção de cinema, se origina de uma experiência televisiva do realizador, quando, em 1996, rodando um episódio para a série da Rede Globo “Gente que faz”, deu com Genivaldo da Silva, um camponês do interior de Alagoas ligado às lutas pela sobrevivência no campo coordenados por grupos radicais como o MST. O tempo e o lugar retoma a figura impositiva de Genivaldo, confrontando os trechos filmados antigamente com a atual situação das personagens; o arrefecimento da violência campesina pela reforma agrária e a decepção com o governo do ex-metalúrgico Lula da Silva perpassam as entrevistas, criando confrontos ideológicos dentro da própria família de Genivaldo.

Sem a habilidade diretiva de Eduardo Coutinho e de João Moreira Salles para colher o melhor material dos assuntos triviais ou importantes que aborda, Escorel faz de O tempo e o lugar um documentário preso ao indivíduo Genivaldo, raramente se expande como uma explosão social que gostaria de ser; o ranço de um certo proselitismo político igualmente entrava a fluência de O tempo e o lugar.
Não se lhe pode negar a importância e a urgência de seu assunto, a sempre precária e adiada reforma agrária no Brasil; pode ser um documento sociológico que deflagre discussões entre os camponeses ou entre os estudiosos interessados no assunto; mas cinematograficamente beira o vazio e o descaso, o que é constrangedor para um cineasta com o passado de Eduardo Escorel.

Por Eron Fagundes

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