IRMÃS NA CAMA DO REI
 

 

20 de junho de 2008

O diretor Justin Chadwick se revela um artesão nada inspirado em A outra (The other Boleyn girl; 2008); com muita displicência e facilidade, o realizador vai transformando aquilo que poderia ser um afresco histórico num melodrama superficial e deformado onde amores e escândalos palacianos tomam o lugar de um olhar crítico sobre a História e uma determinada sociedade. É pena que se desperdicem tantos recursos de produção para um retrato de época caricato e que mistura desconcertadamente elementos clássicos e uma certa vulgaridade típica deste início de milênio, onde quase tudo se procura reduzir à sua versão popularesca; o que fica em cena em A outra é uma fuxicagem real que, retirados seus adornos históricos, caberia numa telenovela brasileira de hoje. Onde está o rigor dos britânicos?

A outra centra-se basicamente na rivalidade entre as irmãs Ana e Maria Bolena pela disputa dos favores sexuais e palacianos do rei Henrique VIII, então casado com a espanhola Catarina de Aragão. Maria é a primeira preferida pelo rei e tem com ele um filho bastardo: é mais doce e ingênua e deixa-se levar por seus sentimentos espontâneos. Depois Ana, quando passa a ser desejada pelo rei, faz desabrochar sua astúcia; só vai para a cama de Henrique depois de casada com ele e já ocupando o lugar de Catarina, a rainha; mas a arguta tenacidade de Ana vai dar num desastroso final, como um castigo para sua implacável dureza humana: acusada de relacionar-se sexualmente com George Bolena, irmão dela e de Maria, cometendo assim um adultério incestuoso, Ana é decapitada. A filha de Ana com Henrique, Elizabeth, reinou por décadas num período memorável para a história inglesa e este período foi acompanhado cinematograficamente por Shekhar Kapur em dois filmes, Elizabeth (1998) e Elizabeth: a era de ouro (2007), que, se estão bastante longe de afrescos definitivos, têm uma força fílmica muito maior que estas imagens desconcentradas de Chadwick.

Uma das fraquezas de A outra é o estado sem vigor do elenco. Scarlett Johansson e Natalie Portman como as irmãs Bolena parecem mal dirigidas: já tiveram dias melhores no cinema. Eric Bana, que fez o Hulk (2003) do cineasta chinês Ang Lee, mostra que é mesmo um intérprete sem recursos: seu Henrique VIII é destituído de energia mesmo em seus momentos de ira do poder (aqui, mais erótico que político). A aparição duma Ana Torrent, já quarentona, na pele da rainha Catarina de Aragão padece da falta de jeito: só nos dá saudades da infância da atriz quando protagonizou alguns desempenhos hipnóticos para os diretores espanhóis Victor Erice e Carlos Saura.

Enfim, uma realização dispendiosa e dispensável este A outra.

Por Eron Fagundes

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