06 de junho de 2008
Indiana Jones e o reino de cristal (Indiana Jones and the kingdom of the crystal skull; 2008), do norte-americano Steven Spielberg, retoma uma personagem que fez muito sucesso nos três primeiros filmes deste autêntico “seriado para a tela grande”. É no que a indústria cinematográfica sempre aposta: repetir o que já foi sucesso, fiando-se que a degustação do público é eternamente uniforme, sem alterações. Na maior parte das vezes esta aposta da indústria está certa, pois há um círculo vicioso em que os vícios da indústria delimitam as possibilidades de reação da platéia. Definitivamente Spielberg é muito mais um técnico do que um artista do cinema; e ele faz, em escala grandiloqüente, e com correção, circularem na tela as óbvias e repetitivas seqüências de ação onde ao espectador só resta um único sentimento, uma única reação: torcer pelo mocinho. Quer dizer, esta torcida só poderá ocorrer ao observador que se interessar por este tipo de coisa, pois há muitos outros que se aborrecerão com as frívolas emoções que Indiana e sua turma pretendem passar adiante. O valor da moeda vai depender daqueles que a recebem.
Até que, neste quarto segmento da personagem, Spielberg parece mais maduro, inclui certas pretensões críticas que ele galhardamente desprezou nos anos 80, querendo então rodar uma narrativa que resgatasse a inocência infantil. Lá pelas tantas Indiana aduz que o conhecimento é o que interessa; não será algo pedante referir o conhecimento num filme em que só o que interessa é o entretenimento, a hora do recreio? Como diz o próprio Indiana, ele é professor de arqueologia em meio expediente; mas na verdade o que aparece nos filmes da personagem é o aventureiro em expediente integral.
O lixo de Spielberg é sempre luxuoso; o tecnicismo do cinema americano lhe favorece. O velho elenco está lá, sem maiores vôos, as interpretações são um tanto estáticas para um filme de ação. Harrison Ford já não é o mesmo, claro, é risível ver seu herói decaído (a não ser que se embrenhe facilmente no fenômeno Indiana). Karen Allen, então, se perde em seus desencantos. O bom ator John Hurt está tão mudo quando disperso nas seqüências em que surge. O herdeiro de Indiana, Mutt Williams, tem na figura do jovem ator Shia LaBeouf uma impossibilidade de viver as velhas aventuras de seu pai, se o produtor e o diretor da série pretendem estender as garras da personagem por alguns anos no século XXI, mesmo depois que Harrison Ford se for. E Cate Blanchett não passa de uma caricatura de si mesma na pele da agente russa Irina Spalko.
Enfim, Indiana Jones e o reino de cristal é o Spielberg de sempre, aqui numa reedição que é de fato infeliz.
P.S.: Quanto às possíveis relações entre os quadrinhos e a linguagem cinematográfica usada por Spielberg, isto me permite reflexionar sobre as formas distantes como os quadrinhos se ajeitam no mundo do cinema. Como Spielberg, o francês Alain Resnais já informou outrora aos curiosos que aprendeu muita coisa com os quadrinhos para utilizar em sua maneira de fazer cinema. Mas se Spielberg se vale daquilo que nos quadrinhos identifica este meio de expressão com a percepção direta e ágil do ouvido-visão infantil, Resnais vai aos quadrinhos buscar elementos para sua montagem intelectual em cinema. É um abismo, não?
Por
Eron Fagundes