O CONDENADO À MORTE NÃO ESCAPOU: OU UMA PAIXÃO NO CÁRCERE
 

 

06 de junho de 2008

Há o rigor plástico do realizador sul-coreano Kim Ki-Duk que transforma Fôlego (Breath; 2007) numa peça eminentemente pictórica, onde o que conta mesmo a história são as cores e os enquadramentos. O formalismo e a tensão espiritual exercitados pelo cineasta são os mesmos de seus outros filmes conhecidos por aqui. Se em Primavera, verão, outono, inverno ... e primavera (2003) a trajetória lírica dum desaprendiz de monge se insinuava na narrativa, em Casa vazia (2004) os cenários inóspitos de casas abandonadas eram preenchidos pelo casal de protagonistas e em O arco (2005) o amor milenar a bordo dum barco entre um velho e uma jovem se desenvolvia iconicamente, agora em Fôlego a polarização se dá entre a burguesa entediada e mal casada e o condenado à morte por ter matado sua mulher e suas filhas, e que seguidamente tenta o suicídio na prisão.

O filme começa no cenário burguês, a mulher enfarada com seu marido dominador, a pequena filha como um objeto decorativo da vida familiar. É neste cenário que aparecem a interstícios noticiários televisivos que falam do condenado à morte que tenta o suicídio na cadeia. Ki-Duk alterna cenas da gélida mansão burguesa com seqüências do espetáculo deprimente do cárcere. E ela, a burguesa, vai ao encontro dele, o criminoso condenado. As visitas na cadeia geram um inusitado estreitamento amoroso. Mas tudo é tão impossível que sabemos o final.

O que fica é o simbolismo oriental carregado do diretor. O tédio familiar é uma prisão, assim como o cárcere: um e outro estendem para os indivíduos seus limites. Pode-se dizer que Fôlego se ressente da incapacidade de Ki-Duk aqui conferir uma dramaticidade plástica às imagens; não transcende, como o japonês Yasujiro Ozu, fica às vezes num formalismo que beira a esterilidade. Mas Fôlego é um espetáculo bom de ver e que proporciona ao espectador uma relação reflexiva com o cinema.

Por Eron Fagundes

| topo da página |