PIROTECNIA INTELECTUAL
 

 

06 de junho de 2008

Como seu evidente mestre, o franco-suíço Jean-Luc Godard, o realizador francês Cristophe Honoré é um citador inveterado. Pode-se aplicar a Honoré aquilo que a ensaísta norte-americana Pauline Kael referia para ironizar um jovem Godard: “Às vezes há uma perturbadora, uma quase extática inocência na maneira como usa citações, como se acabasse de ouvir falar dessas belas idéias e quisesse partilhar com o mundo seu entusiasmo.” (Pauline Kael em “Brutalizadores do cinema”, 1966). Em Paris (Dans Paris; 2006), filme de Honoré que chega aos circuitos brasileiros, é godardiano até à medula; começa com o narrador metalingüístico da personagem de Louis Garrel que no início do filme se dirige num primeiro plano para o público introduzindo a história e vai espalhar-se ao longo da narrativa por uma série de referências cinematográficas e literárias tão intelectualmente francesas.

Em Paris é um divertimento intelectual de alta categoria. Há quem acenda seus sentidos, e divirta-se, diante de Indiana Jones. Meus sentidos se acendem melhor, e eu me divirto, acompanhando a pirotecnia intelectual de Em Paris. Claro que poderá haver o espectador que acenda inteiramente seus sentidos nos dois modos de espetáculo: é assim o cinema, um corpo com os mil olhos do Dr. Mabuse.
Em Paris não é, de maneira alguma, uma obra pedante e cinematograficamente entravada, como o é A via Láctea (2007), da brasileira Lina Chamie. Os excertos metalingüísticos (como aquele que abre o filme) e as cataratas de citações se aninham com muito senso de cinema dentro dos dramas das personagens que preenchem o espaço autenticamente poético de que se vale Honoré para impor seu filme. Em Em Paris a poesia do olhar do cineasta é às vezes tão prodigiosa que chega a produzir uma atmosfera musical, sutil e indefinível como aquela do clássico Uma mulher é uma mulher (1961), de Godard, com Anna Karina, Jean-Paul Belmondo e Jean-Claude Brialy, onde os signos banais do cotidiano também se aceleravam a todo o momento por uma montagem musical de filmar, como faz Honoré em Em Paris, quase transcopiando certos rabiscos estéticos do Godard que musicava em imagens.

A pirotecnia intelectual de Em Paris é vasta e é ela que ocupou meu sentido de divertimento ao ver o filme, mais que o rangente suicida Paul, o hedonista Jonathan, o pai desajeitado ou as fêmeas ocupadoras do espaço erótico ou moral. Há uma cena em que a personagem de Louis Garrel, Paul, está na cama com sua namorada; ela diz a ele que lembra a primeira vez em que estiveram naquele local, quando ele falou de amor, depois falou de uns guarda-chuvas (a alusão ao musical clássico de Jacques Demy Os guarda-chuvas do amor é escorreita e cativante e fragmenta-se admiravelmente na frase citatória). Na mesma cena ele está lendo J.D. Salinger, romancista norte-americano que fez muito sucesso nos anos 60. Mais para o fim do filme, a criatura deprimida de Romain Duris cruza pela frente de dois cartazes de cinema, o de Últimos dias (2005), de Gus Van Sant, e Marcas da violência (2005), de David Cronenberg, obras contemporâneas que tratam da estranheza da violência no mundo de hoje. Na seqüência final duas citações literárias que se opõem: os irmãos lêem primeiro o fluxo refinado do texto do escritor francês Marcel Proust e depois uma história infantil em quadrinhos. Se todo este rol de parapeitos artísticos pode ser tido, como queria Pauline Kael, como a faceirice de alguém que descobriu belas idéias e quer ingenuamente partilhá-las com o público, não se pode negar que em Em Paris é tudo muito transparente e genuíno e notavelmente encaixado em todas as feições narrativas.

Produzido pelo português Paulo Branco, o mesmo de alguns filmes do cineasta lusitano Manoel de Oliveira mas também de alguns realizadores franceses fora do padrão comercial como Honoré, Em Paris não é um filme difícil ou secreto, apesar de suas constantes citações. O espectador que, diferentemente de mim, buscar o lado mais sentimental da narrativa, poderá satisfazer-se, desde que vença a barreira inicial trazida por um certo narrar estilhaçado.

Por Eron Fagundes

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