18 de julho de 2008
O cineasta Fatith Akin é um alemão de Hamburgo filho de imigrantes turcos; ao que se saiba vivendo constantemente entre suas atividades germânicas e a busca de suas origens entre seus parentes na Turquia, Akin tem construído um cinema que navega entre estas indecisões de identidade, mas se trata de filmes que passam à margem de qualquer indecisão estética, são visualmente fortes e extremamente lúcidos em todos os seus elementos temáticos; narrativas turco-teutônicas praticamente únicas no cinema internacional de hoje. Em Do outro lado (Auf Der Anderen Seite; 2006), seu trabalho mais recentemente lançado no Brasil, um professor universitário vê no início do filme seu idoso pai manter um relacionamento com uma prostituta, vindo o velho a matá-la meio acidentalmente após um desentendimento; o professor, de origem turca como a prostituta, vai à Turquia em busca da filha da falecida; esta filha é uma ativista política e está em busca da mãe, vindo a envolver-se sexualmente na Alemanha com uma garota que depois na fase da ativista na Turquia é assassinada ao tentar ajudar a amiga; diante da morte da garota alemã, a mãe desta empreende viagem à Turquia para dividir as mágoas com a amante da filha morta. Assim, Do outro lado mistura, habilmente, a procura do professor pela filha da concubina morta de seu pai, a peregrinação da mãe da jovem germânica assassinada à Turquia e a procura da ativista por sua mãe (já morta, mas ela não sabe), fazendo um elo entre as mortes da prostituta (que marca as buscas do professor e de uma rebelde turca) e da rapariga alemã (que assinala a procura duma mãe); os relacionamentos do professor alemão com seu pai se tumultuam, assim como são perturbados pelo galopar dos fatos políticos os relacionamentos de duas mães (uma alemã, outra meretriz turca na Alemanha) com suas filhas; os caminhos e as procuras de todos estes seres se cruzam e bifurcam no roteiro, criando as crises nacionais das personagens sem que uma personagem de fato saiba da inquietação e busca da outra: estão nos mesmos cenários, seus problemas se interligam, mas eles não sabem; só a consciência da narrativa precisa de Akin esclarece o espectador.
Akin fala do que conhece em seus filmes, dos apátridas pretensamente turcos ou aparentemente alemães. Em Contra a parede (2004) ele unia em cena dois problemáticos e tresloucados imigrantes turcos na Alemanha, um casal estranho e suicida porém vital. Em Atravessando a ponte: o som de Istambul (2005) o realizador mostrava um músico alemão que ia a Istambul curtir os sons turcos. Novamente em Do outro lado é a peregrinação entre duas culturas, a alemã e a turca, que dá a força lingüística do filme. A seqüência inicial —um movimento lateral da câmara num cenário agreste e despido, a chegada de um carro a uma bomba de gasolina, o homem que desce e vai à loja de conveniências, os mesmos diálogos, os mesmos enquadramentos— é repetida quase ao final, dando uma característica de novelo narrativo a Do outro lado. A imagem final, em plano fixo, sentado na areia, o professor alemão esperando por seu pai que saiu de barco, o professor viajou da Turquia à Alemanha para se reconciliar com o pai de quem sentia asco desde a morte da prostituta, é tão melancólica quanto profundamente crítica na utilização duma luz que lança sobre todo o filme.
E, entre os vários presentes de Akin, está a aparição duma envelhecida Hanna Schygulla como a mãe da garota alemã assassinada, Hanna que foi um ícone da geração de cinéfilos que a amou em filmes do alemão Rainer Werner Fassbinder, especialmente na obra-prima Effi Briest (1974). Hanna, na velhice, está ainda melhor como intérprete: ela dá com sua peculiar interpretação todo o significado do desgarrado vazio que se apossa daquelas vidas sem rumo que cercam e coroam sua personagem.
Por
Eron Fagundes