20 de junho de 2008
Aquilo que pode haver de sensorial e direto no cinema, as superfícies agradáveis da imagem cinematográfica aparecem de maneira exemplar em Chega de saudade (2008), onde a realizadora brasileira Laís Bodanzky concentra a ação narrativa num tempo e num espaço reduzidos, uma noite num salão de bailes para a terceira idade, para falar das aventuras emocionais dos seres humanos. Só a seqüência inicial (mostrando a chegada das pessoas para o baile) e a seqüência final (a retirada das pessoas para a noite e para o recolhimento, depois das marcações sentimentais registradas pelo filme quase documentalmente) se passam fora do salão de baile; Laís e seu montador Paulo Sacramento são suficientemente hábeis para escapar à diluição teatral do cenário concentrado e manter o interesse do espectador pelas vidas em cena mesmo que destas vidas a janela cinematográfica só vislumbre momentos muito esparsos.
Ainda que adote um tom divagante a partir do roteiro de Luiz Bolognesi que dispara pelas circunstâncias de várias personagens, a direção de Laís é segura e logra dar uma unidade extraordinária ao tipo de narrativa que propõe. Se o filme anterior da cineasta, Bicho de sete cabeças (2001), ambientado na densidade do manicômio em boa parte de sua duração, conflitava sua tensão interior com as soluções mais superficiais do cinema de Laís, em Chega de saudade as facilidades poéticas, as ingenuidades dramáticas, a imagem diretamente sensorial se casam bem e os possíveis defeitos do cinema da diretora paulista se camuflam na emoção que passa ao público.
Chega de saudade é também um curioso desfile de imagens do envelhecimento humano. Laís escolheu bem seu elenco e soube dirigi-lo com mão firme. É bem verdade que às vezes Tônia Carrero e Leonardo Villar exibem seus excessos de velhas estrelas, mas o que eles ainda conservam de intérpretes adequados é utilizado com perfeição por Laís. Betty Faria e Cássia Kiss não escondem o passar dos anos, mas estão emocionalmente vorazes em cena. E Stepan Necessian, com seu notável cinismo de interpretar (Stepan já foi um marcante pivete de rua num filme de Reginaldo faria), faz um impagável galanteador. Os jovens Paulo Vilhena e Maria Flor são um contraste físico contrapostos ao verdadeiro museu humano em cena, mas como atores nunca destoam e se coadunam admiravelmente com seus colegas mais experientes.
Um baile e suas histórias: a inocente rapariga Maria Flor se apaixona pelo experimentado sedutor Stepan Necessian, Tônia e Leonardo são velhos amantes que cruzaram a vida juntos desde os tempos do casamento dele com outra mulher e estão numa áspera e ranzinza velhice, Betty é a gata velha desesperada que não consegue ninguém, e Elza Soares é a cantora da banda que inunda o salão, tudo costurado com surpreendente justeza por Laís.
Por
Eron Fagundes