PEQUENOS TRAUMAS EM FAMÍLIA
 

 

30 de junho de 2008

No  filme Bella (Bella; 2006), uma produção entre mexicanos e americanos dirigida pelo mexicano Alejandro Gómez Monteverde (é seu primeiro filme), a personagem-título, uma garotinha de uns oito anos chamada Bella, vai aparecer somente na seqüência final, está na praia com um dos protagonistas da narrativa, o mexicano José, e vai dizer algumas breves palavras quando lhe aparece ali, junto da praia, sua mãe biológica, a americana Nina, outra protagonista da história.

Bella é uma história de traumas e dificuldades de viver contada com alguma dignidade por Monteverde. José é o gerente de cozinha do restaurante do irmão, Manny. Nina trabalha também ali, mas seguidamente se atrapalha, falta ao serviço. Na primeira seqüência do filme Manny a está despedindo por uma destas faltas. José, consternado, abandona o restaurante e vai atrás de Nina. Logo se estabelece o confronto entre o autoritarismo capitalista de Manny e o humanismo afiado mas tristonho de José. O que Bella põe na tela de maneira sensível é a trajetória de amizade entre José e Nina: ela descobre que está grávida, logo após perder o emprego, mas quer abortar e José lhe sugere a adoção; na visita que os dois fazem aos pais de José e Manny, alguns traumas do passado de José assomam, revelando a Nina o outro lado da moeda de seu desespero abortivo: José um dia foi responsável pela morte duma garotinha e esteve preso, os gritos da mãe da menina são ponto de culpa na memória; Manny, o mano tortuosamente amado, foi adotado e vê-se que a família lida meio sombriamente com este fato e as relações entre irmãos.

Na verdade, Bella tem aquele incômodo sentimentalismo melodramático que incomoda por sua obviedade de golpe baixo e talvez se deva atribuir a uma herança atávica do cinema mexicano, especialista em dramalhões. Se isto pode perturbar a serenidade crítica do espectador, o fato é que Bella pode conquistar o espectador pela delicadeza e senso humano e fílmico com que acompanha a amizade entre Nina e José.

Por Eron Fagundes

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