A RUINDADE AMADURECIDA
 

 

18 de julho de 2008

O veterano realizador norte-americano Robert Benton não se emenda: em seu novo filme, Banquete do amor (Feast of love; 2007), ele amadurece seu sentimentalismo torto, pasteurizado, incomodamente deformado. O cavalo de batalha de sua filmografia é Kramer versus Kramer (1979), que em seu tempo não deixou de arrebatar o público de Hollywood carente de uma novelinha cinematográfica preenchido com o brilho dos atores à americana (no filme de Benton, os astros que viviam o dueto interpretativo eram Dustin Hoffman e Maryl Streep, já saindo da juventude para o início da maturidade); mas Kramer versus Kramer, analisado com olhos críticos, era superficial e recorria em cada fotograma aos clichês do melodrama da meca do cinema. Banquete do amor consegue ser muito mais mal filmado do que Kramer versus Kramer; mas o curioso é que Banquete do amor, dramazinho insosso e medíocre, se estrutura num roteiro que busca alguma complexidade, o que hoje chamam filme-coral e nada mais é do que as vertentes que jorraram desde os filmes-rio do norte-americano Robert Altman nos anos 70.

A personagem de escritor vivida por Morgan Freeman é o centro da trama; e o desgaste interpretativo de Freeman se espalha pelo espírito narrativo, amorfo e congelado. Em torno de Harry, a criatura de Freeman, os embates amorosos se desenrolam. Um amigo do escritor é traído por sua mulher com outra mulher, caso de lesbianismo. Uma corretora imobiliária está tendo um caso com um homem casado, mas vem a abandoná-lo para casar com o homem traído pela mulher com outra mulher, porém depois abandona este marido para ficar com o ex-amante quando este se separa da mulher (algo à Eric Rohmer nesta ciranda amorosa, porém pasteurizado). Os jovens Chloe e Oscar têm uma relação intensa até um inesperado acontecimento. Parece que Benton busca falar daquilo que, nas relações humanas, o cineasta sueco Ingmar Bergman chamou certa vez “analfabetismo emocional”, especialmente na figura do homem abandonado duas vezes por mulheres; mas entre a densidade de Bergman (e sua expressividade visual) e o dispersivo-frouxo de Benton vai uma distância abissal.

De fato: Benton amadureceu a ruindade de seu cinema.

Por Eron Fagundes

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