04 de julho de 2008
Não tenho com o cinema do norte-americano Sidney Lumet uma afinidade tão grande e desconheço boa parte de sua produção, mas uma narrativa policial tão sinuosa e apaixonante como Antes que o diabo saiba que você está morto (Before the devil knows you’re dead; 2007) me traz este sentimento muito particular: não estaríamos diante do mais apurado e vigoroso Lumet, o pico de sua carreira? As lembranças fugazes dos filmes de Lumet me evocam uma linguagem-padrão herdada da televisão, que é de onde o cineasta veio e onde ele aprendeu a reflexionar sobre o mundo através de imagens; Antes que o diabo saiba que você está morto assoma como a mais cinematográfica de suas realizações, aquela que interfere nas marcações objetivamente obtusas duma marcação televisiva.
A narrativa de Lumet exerce, com precisão e elegância, um vaivém temporal; o centro da trama é um assalto a uma joalheria, mas Lumet narra as cenas mais de uma vez, vai e volta no tempo, altera os pontos de vista, enxerta detalhes que ficaram elípticos nas visões anteriores da cena, tudo se passa entre o dia do assalto e os dias posteriores que trazem do assalto os desdobramentos duma tragédia familiar ali envolvida. De uma certa maneira, Lumet vai pelo caminho de pontos de vista de Cães de aluguel (1991), do também norte-americano Quentin Tarantino, a recomposição do tempo, os retornos de cenas; é bem verdade que a estilização escrachada e revolucionária de Tarantino vai além daquilo a que a linguagem mais acadêmica e formal de Lumet poderia aspirar. Mas os elementos acadêmicos em Antes que o diabo saiba que você está morto nunca são rançosos: tudo funciona com um frescor e uma novidade poucas vezes vistos no cinema americano de espetáculo para grande público, como de fato é esta realização de Lumet.
Oriundo da televisão e mesmo do teatro, Lumet aguça aqui seu sentido do fascínio do ator. O veterano Albert Finney como o patriarca da família está em seu grau máximo em cena. Philip Seymour Hoffman e Ethan Hawke como os irmãos que planejam o roubo da joalheria de seu pai vivido por Finney e que veio a dar muito errado, fazendo transbordar as angústias familiares acumuladas, estão no desenho exato de suas personagens. Marisa Tomei como a mulher de um dos irmãos é outra nota habilmente incrustada na partitura interpretativa.
O filme se abre com uma seqüência de idílio sexual: as criaturas de Philip Seymour Hofman e Marisa Tomei estão num quarto de hotel, no Rio de Janeiro, vivenciando férias; não há exteriores cariocas (em O incrível Hulk, 2008, de Louis Leterrier, houve filmagem numa verdadeira favela do Rio), mas novamente o Brasil é referido no cinema americano visto por aqui este ano. Em seguida, Lumet nos joga no turbilhão temporal duma narrativa onde a segurança de filmar e o engenho crítico do realizador atingem pontos de incrível controle e sensibilidade.
Em seu Dicionário de cineastas (1988), no verbete dedicado a Lumet, o crítico brasileiro Rubens Ewald Filho anota: “Um cineasta a serviço de textos e atores, nunca um autor.” Quem sabe? Em Antes que o diabo saiba que você está morto o roteirista é o diretor de teatro Kelly Masterson. (A questão da autoria em cinema cruza também a filmografia de um cineasta muito mais ousado que Lumet, o francês Alain Resnais, que alguns acusaram em determinada época de mero ilustrador de extraordinários roteiristas).Enfim, o fato é que a linguagem cinematográfica de Lumet desliza pelo roteiro de Masterson, compondo-o mesmo.
Por
Eron Fagundes